Cancelamento foi justificado pela Prefeitura como medida preventiva diante do surto de escabiose; decisão reacende debate sobre a preservação das tradições cívicas e sobre a coerência das medidas adotadas pelo município
Alfenas (MG) — A manhã deste 07 de setembro amanheceu diferente em Alfenas.
Em vez das ruas tomadas por estudantes uniformizados, bandeiras, bandas marciais, autoridades, famílias e pelo tradicional desfile do Tiro de Guerra, a cidade teve uma celebração reduzida ao hasteamento das bandeiras na Praça Getúlio Vargas.
Pelo segundo ano consecutivo, o tradicional desfile cívico de 07 de setembro não foi realizado. Mas, desta vez, a razão apresentada pela administração municipal não foi financeira. O motivo é sanitário: o município enfrenta um surto de escabiose humana, popularmente conhecida como sarna.
Segundo informações divulgadas pela imprensa e pela própria administração municipal, os casos começaram a ser identificados no fim de agosto e já chegavam a aproximadamente 150 registros. A situação levou à criação de um Comitê Intersetorial de Enfrentamento e Monitoramento da Escabiose Humana, envolvendo áreas como Saúde, Educação, Vigilância Sanitária e Epidemiológica e outros órgãos.
A Prefeitura anunciou, no dia 4 de setembro, a suspensão do desfile como medida preventiva para reduzir o risco de transmissão da doença. Em seu lugar, foi mantido um ato cívico simplificado, com o hasteamento das bandeiras na Praça Getúlio Vargas, às 7h.
A decisão, do ponto de vista sanitário, tem uma justificativa objetiva: evitar uma grande concentração de pessoas em um mesmo espaço durante um momento de circulação de uma doença contagiosa.
Mas é justamente aí que começam as perguntas.

O que mudou em Alfenas?
O cancelamento de 2026 ocorre em um contexto diferente daquele de 2025.
No ano passado, a Prefeitura cancelou o desfile de 07 de setembro e outros eventos comemorativos alegando a necessidade de conter despesas e priorizar recursos para serviços essenciais, como a compra de medicamentos, fraldas e suplementos alimentares.
Em 2024, porém, Alfenas realizou normalmente seu desfile cívico-militar, com participação do Tiro de Guerra e de segmentos civis e militares.
Agora, em 2026, a explicação é outra: saúde pública.
E não se pode ignorar a gravidade da situação.
O município realmente enfrenta um surto de escabiose. Duas creches municipais chegaram a ter as atividades suspensas temporariamente em razão da concentração de casos. Dados divulgados apontam dezenas de registros somente em duas dessas unidades. Nas demais escolas, segundo informações divulgadas, as atividades continuaram, com afastamento de alunos e servidores infectados.
Portanto, não é correto dizer simplesmente que “as escolas funcionaram normalmente”. Houve, sim, medidas de suspensão e controle. Mas também é legítimo perguntar por que determinadas atividades coletivas foram suspensas enquanto outras formas de circulação e funcionamento da cidade permaneceram.
A pergunta que fica!

Se a preocupação central é impedir aglomerações, qual é exatamente o critério utilizado para determinar quais concentrações representam risco aceitável e quais devem ser evitadas?
Essa não é uma pergunta contra a prevenção sanitária.
É, justamente, uma pergunta sobre transparência.
O cidadão tem o direito de saber quais critérios técnicos levaram à decisão de cancelar o desfile. Tem o direito de saber por que um evento de algumas horas, realizado em espaço aberto, foi considerado inadequado enquanto outras atividades continuam ocorrendo.
A Prefeitura, por sua vez, tem o dever de explicar.
E há uma diferença importante entre questionar uma decisão e negar a existência de um problema de saúde pública.
Ninguém deveria defender que um desfile seja realizado a qualquer custo diante de um surto de doença transmissível. Se os técnicos da Saúde recomendaram a suspensão, a orientação deve ser levada a sério.
Mas a mesma lógica exige que o poder público seja coerente, transparente e capaz de explicar à população como suas decisões são tomadas.

Um 07 de setembro reduzido ao hasteamento
Apesar do cancelamento do desfile, Alfenas não deixou a data passar completamente em branco.
Na manhã desta segunda-feira, 07 de setembro, foi realizado o ato cívico previsto pela Prefeitura, com o hasteamento das bandeiras na Praça Getúlio Vargas, em frente à Igreja Matriz São José e Dores.
A programação reduzida preservou pelo menos um dos símbolos tradicionais da data.
Mas também produziu uma imagem bastante diferente daquela que durante décadas marcou o calendário da cidade.
Não houve a grande concentração de estudantes.
Não houve as bandas marciais ocupando as ruas.
Não houve o desfile do Tiro de Guerra diante da população.
Não houve a tradicional passagem das escolas e instituições.
Houve a bandeira.
E talvez seja justamente a bandeira que nos obrigue a olhar para o significado da data.

Afinal, o que significa o 07 de setembro?
O 7 de Setembro não é apenas mais um feriado nacional.
É a data em que o Brasil celebra a Independência, proclamada em 1822.
É um momento de memória histórica, mas também de reflexão sobre aquilo que significa ser brasileiro.
A Independência representa soberania.
Representa a construção de uma identidade nacional.
E representa, sobretudo, responsabilidade.
Porque uma nação não se constrói apenas quando um príncipe proclama sua separação de outra nação.
Uma nação é construída todos os dias.
Por seus cidadãos.
Por suas instituições.
Por seus professores.
Por seus estudantes.
Por seus trabalhadores.
E, principalmente, por aqueles que ocupam cargos públicos e assumem responsabilidades em nome da população.
Patriotismo não deveria ser apenas discurso
É nesse ponto que a ausência de autoridades pode se transformar em um debate legítimo.
Um representante eleito não precisa necessariamente participar de todos os eventos públicos. Existem compromissos, agendas, circunstâncias e justificativas que podem explicar uma ausência.
Mas, quando se trata de uma data nacional, a presença simbólica também tem significado.
Alfenas possui atualmente um representante de forte vínculo histórico com o município na Assembleia Legislativa de Minas Gerais: o deputado estadual Luiz Antônio da Silva, o Luizinho, que foi prefeito da cidade por três mandatos e exerce mandato parlamentar. A própria Câmara Municipal registrou, em junho deste ano, sua presença em Alfenas para prestação de contas de sua atuação parlamentar.
Por isso, cabe ao site Conexão Alfenas, questionar sua ausência do parlamentar no ato de hasteamento da Bandeira desta segunda-feira juntamente com o Prefeito Fábio, o Vice Eliacim e alguns secretários municipais.
Ele foi convidado?
Tinha outro compromisso oficial?
Por que não participou?
Sua assessoria tem alguma justificativa para a ausência?
Porque jornalismo não é simplesmente apontar o dedo.
É perguntar.
É ouvir.
É confrontar versões.
E permitir que o leitor tire suas próprias conclusões.
Um problema que vai além do desfile
Talvez o verdadeiro debate de Alfenas não seja apenas sobre ter ou não ter desfile.
Talvez seja sobre o valor que a cidade dá às suas próprias tradições.
Em 2024, o desfile aconteceu.
Em 2025, foi cancelado por questões financeiras.
Em 2026, novamente não aconteceu, desta vez por uma questão sanitária.
São dois anos consecutivos sem uma das principais manifestações cívicas do calendário municipal, embora por razões completamente diferentes.
E isso deveria provocar uma reflexão.
O desfile é caro? Então é preciso discutir prioridades.
Há risco sanitário? Então é preciso discutir critérios técnicos.
Mas, em qualquer dos casos, o cidadão precisa compreender as razões.
Porque tradição não pode desaparecer silenciosamente.
Não basta hastear a bandeira
O hasteamento da bandeira é importante.
O Hino Nacional é importante.
Os símbolos nacionais são importantes.
Mas eles não existem para serem apenas cumpridos como uma formalidade no calendário.
A bandeira representa uma história.
O hino representa uma identidade.
O 07 de setembro representa uma conquista histórica.
E tudo isso perde força quando a participação da sociedade deixa de ser estimulada.
Patriotismo não significa concordar com governantes.
Não significa defender partido político.
Não significa fechar os olhos para problemas.
Pelo contrário.
Patriotismo também é cobrar.
É fiscalizar.
É perguntar.
É exigir transparência.
É defender aquilo que pertence a todos.

Alfenas merece respostas
O cancelamento deste ano pode ser justificável do ponto de vista sanitário. Há um surto real de escabiose, existem centenas de pessoas potencialmente afetadas e o município adotou medidas de contenção, incluindo a suspensão temporária de atividades em unidades com maior concentração de casos.
Também é fato que a Prefeitura manteve serviços funcionando durante o feriado, como a coleta de lixo, a Balsa da Harmonia e o Mercado Municipal em horário especial.
Nada disso, isoladamente, prova incoerência.
Mas tudo isso justifica perguntas.
Quais são os critérios sanitários para uma aglomeração ser permitida ou proibida?
Por que o desfile foi considerado inadequado e outras atividades foram mantidas?
Quais medidas foram adotadas para controlar efetivamente o surto?
Quantos casos existem hoje?
Quantas escolas foram afetadas?
Qual é a previsão para o controle da doença?
E, sobretudo, o que será feito para que Alfenas não perca definitivamente uma tradição que durante anos reuniu crianças, famílias, instituições civis e militares em torno de uma mesma data?
Que o 07 de setembro não vire apenas um feriado
O Brasil não deixou de ser independente porque Alfenas não teve desfile neste ano.
Mas uma cidade pode, pouco a pouco, perder suas tradições quando elas deixam de ser valorizadas.
O 07 de setembro não precisa necessariamente de uma avenida lotada para existir.
Mas precisa de memória.
Precisa de participação.
Precisa de exemplo.
Precisa de coerência.
E precisa, principalmente, de uma sociedade que não aceite simplesmente que determinadas tradições desapareçam sem perguntar por quê.
Talvez seja esse o verdadeiro significado da Independência: não apenas lembrar o grito que ecoou às margens do Ipiranga há mais de dois séculos, mas compreender que uma nação só permanece de pé quando seus cidadãos participam dela.
Que a bandeira continue sendo hasteada.
Que o Hino Nacional continue sendo cantado.
Que nossas crianças continuem aprendendo a história do país.
E que, quando chegar o próximo 07 de setembro, Alfenas possa novamente ocupar suas ruas não apenas para desfilar, mas para lembrar que uma cidade também é feita de memória, identidade, cidadania e participação.
Porque o 07 de setembro não deveria ser apenas um feriado.
Deveria ser um lembrete.
De que o Brasil é de todos nós.
E de que manter essa nação de pé também é responsabilidade nossa.
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